I wanna be your hero, baby.

bernardvilleneuve:

Com a posição no time de lacrosse de uma das mais prestigiadas universidades do planeta vinham alguns privilégios e, por causa deles, muitas desconfianças. Era uma ocorrência comum a aproximação de pessoas cujo único interesse era aproveitar-se das vantagens que sua companhia oferecia, e o fato de ser bem aparentado só servia como fator amplificador para tal. Sentia-se confortável na companhia da maioria dos jogadores da equipe, mas não conseguia evitar olhar de esguelha qualquer um que não fizesse parte de seu círculo, e apesar de praticar o mesmo esporte, Ian certamente não estava incluído na sua lista de amizades, o que, de um jeito ou de outro, o levava inevitavelmente a questionar suas intenções. Bernard era um garoto bem educado e de boa índole até certo ponto, sim, e tivera que descobrir da pior forma que uma vida nos Estados Unidos, tendo que cuidar de si mesmo, exigia que se tornasse um pouco menos indulgente. Dois anos atrás ele teria interpretado a atitude de Harris como uma simples gentileza de um colega, e isso poderia ter sido seu grande erro. Vinte e quatro meses haviam sido mais do que suficientes para começar a ensiná-lo, a passos lentos, como deixar de ser um total e completo otário, por isso flagrou-se questionando o garoto em voz alta. “Qual o seu ângulo?" Ouviu-se perguntar, uma das sobrancelhas erguidas em um arco que em qualquer outra expressão pareceria improvável, mas que já estava tornando-se uma constante na sua.

Suas dúvidas, porém, não o impediram de aceitar a garrafa d’água que lhe foi oferecida, e foi só depois de um longo gole que seus pensamentos pareceram entrar em foco novamente. Com eles vieram os instintos nele implantados por sua mãe  que, em suas próprias palavras, “não o havia criado para ser um neanderthal"  e a vontade de chutar o próprio traseiro. O garoto havia acabado de salvá-lo de um possível estrangulamento por uma barra de metal inanimada e ele retribuía com o princípio de um inquérito. Não surpreendia-se que o loiro parecesse tanto desprezar a companhia dele e de seus amigos: conseguiam ser incrivelmente babacas às vezes.

Bem, no caso de Bernard as vezes eram mais frequentes do que gostaria de admitir. A convivência com outros membros do sexo masculino e a constante exposição a altos níveis de testosterona meio que o haviam transformado em um grande imbecil ao longo do tempo, motivo pelo qual sua voz continuou dizendo palavras que não orientara a sua boca a formar. “Se gosta de contos de fada onde há uma donzela em perigo e um príncipe em um cavalo branco, acho que deveríamos inverter os papéis." Foi o comentário sarcástico que escapou-lhe, e após registrá-lo o francês teria alegremente se enterrado vivo se pudesse. Culpava a concentração de sangue em seu cérebro por tê-lo feito abrir sua enorme boca sem antes construir a frase cuidadosamente. 

Não esperava exatamente um agradecimento, não vindo de algum daqueles idiotas, mas um olhar de gratidão teria sido o suficiente. A desconfiança vinda de imediato do lado de Bernard o apanhou completamente desprevenido. O olhou durante uns segundos, atordoado, seu cérebro processando a informação tão devagar que sequer teve tempo de retirar a garrafa de água previamente oferecida. Deixou que ele a arrancasse das suas mãos. “Cara, eu só estava tentando ajudar. Você não é exatamente meu amigo, mas isso não quer dizer que eu te vá deixar morrer.” Arqueou uma de suas sobrancelhas, voltando a pegar seu saco, algo irritado, mas ainda não virando as costas para o deixar sozinho. Por muito que o jogador francês o estivesse tirando do sério, ainda queria ter a certeza que ele estava bem e capaz de ir embora sozinho, antes de deixar o ginásio. Estava quase certo que era um completo idiota, sendo demasiado simpático para o seu bem. Por muito que não tivesse o sentido de camaradagem pelo seu time, não podia esquecer que Bernard ainda era um dos seus jogadores. Se algo acontecesse com ele, teriam uma época complicada. Ele podia parecer um babaca completo, mas Harris não era estúpido o suficiente para afirmar que ele não era um bom jogador.

Deixou que ele bebesse a água e recuperasse o seu fôlego, enquanto o observava com um rosto completamente indiferente, por muito que sua vontade fosse largar o peso na garganta do maldito e virar costas. De tantas faculdades no país, ele tinha de acabar na que tinha a maior percentagem de imbecis do país. Sua sorte era inacreditável. Talvez fosse mais fácil para Ian simplesmente fingir que era tão idiota quanto eles, mas não conseguia se levar a fazê-lo. Seria mentir para si mesmo. Preferia manter-se fiel ao que era e passar suas sextas sozinho com seu computador e sua fiel mão, do que se tornar um deles. Só faltavam três anos. Ele podia aguentar três anos. Quem sabe não acabaria por os conquistar com sua simpatia inquebrável? Talvez nos seus sonhos.

E, de novo, Bernard conseguiu surpreênde-lo com sua grosseria. Levou uma mão ao seu rosto, pressionando suas têmporas devagar, tentando se acalmar para não enfiar um soco no rostinho bonito do jogador. A última coisa que queria era ser suspenso do time por ter tentado ajudá-lo. "Eu tenho melhor gosto nas minhas donzela. Até porque elas costumam ter uma vagina." Revirou os olhos, ainda tentando evitar responder na mesma moeda. Matá-los com simpatia, era o que sua mãe sempre dizia. Pelos deuses, quando raios tinha começado a aceitar os conselhos de sua mãe? "Certo, vou presumir que você está bem e totalmente capaz de sair pelo seu próprio pé." Ajustou a alça no seu ombro, se preparando para deixar o ginásio. “E só para que fique registrado, quando alguém te ajuda, normalmente um obrigado é suficiente.”

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bernardvilleneuve:

Mesmo já morando nos Estados Unidos fazia dois anos, Bernard ainda encontrava dificuldade em se relacionar com alguns dos colegas por causa das diferenças culturais, e continuava a pensar em francês mesmo sabendo que precisava articular-se em inglês constantemente. Seu sotaque havia enfraquecido um bocado com o tempo, mas o som da letra r sempre parecia um pouco mais carregado quando o pronunciava, e sua dificuldade com a enunciação de algumas sílabas obviamente o denunciava como estrangeiro, o que significava que, antes de finalmente ingressar no time de lacrosse, havia recebido provocações constantes a respeito de baguettes em seu cul

Agora que tinha sua vaga na equipe, porém, os comentários infundados haviam cessado. Era meio difícil implicar com um garoto que conta com o auxílio de uma dezena de outros com bíceps igualmente desenvolvidos, e Bernard sentia-se grato pelo apoio que encontrara nos companheiros. Era estranho pra ele, socializar com pessoas do mesmo sexo, visto que em Paris frequentara um internato misto e sempre se mantivera cercado de garotas na maior parte do tempo. Alguns dos assuntos obscenamente explícitos que circulavam nos vestiários ainda os chocavam esporadicamente, mas fora isso, estava se acostumando bem. Volta e meia até encontrava coragem para acrescentar suas próprias indecências. Progredia a passos lentos, mas constantes, e antes que pudesse perceber, havia deixado de ser o gringo para ser somente Bernard, o melhor defenseman que qualquer um deles havia visto em anos. Ser reconhecido por sua habilidade e não pela forma engraçada como falava era realmente gratificante, e as amizades que finalmente conseguira formar o deixavam confiante de que talvez não fosse só a excelência no estudo e o futuro como atleta que Harvard tinha a lhe oferecer.

Mesmo lesionado, recusava-se a deixar de dedicar o tempo que julgava necessário para seu treinamento. Sabia que estava forçando sua sorte, e que não poderia ir para os campos por pelo menos duas semanas, mas queria manter-se em forma para quando finalmente a temporada de jogos começasse, motivo pelo qual, a despeito das recomendações da equipe médica, continuou com sua rotina de musculação normalmente. Em seu melhor estado, conseguia facilmente levantar mais de 90kg no supino, mas tal proeza se tornava ligeiramente mais difícil quando se havia distendido o músculo. Se não fosse o auxílio de Ian Harris, provavelmente teria sufocado sob o peso e acabado com a frase “no pain no gain” em sua lápide como ironia à sua estupidez.

De todos os demais jogadores do time, Ian era o único que Bernard não conhecia realmente. Havia pensado algumas vezes em tentar engatar conversa com o rapaz, mas na maior parte do tempo o mais novo parecia uma corsa assustadiça, pronta para correr ao menor sinal de perigo, e se havia uma coisa com a qual não tinha talento era para lidar com pessoas que não se sentiam exatamente confortáveis ao seu redor. Podia perceber que o loiro era diferente da restante da equipe, e talvez fosse por isso que mantivesse sua distância, mas o fato é que assumia, pela forma como se portava, que Harris não era exatamente fã de nenhum dos colegas de equipe. O que o levava a perguntar-se porque exatamente havia impedido que acabasse decapitado pela própria estupidez e, principalmente, como raios aquele magricela conseguia levantar os noventa quilos que o estavam torturando segundos atrás. “Obrigado," ouviu-se agradecendo, incapaz de lutar contra os anos de educação rigorosa que sua mãe lhe haviam incutido. Sentou-se, respirando com alguma dificuldade, ambas as mãos nos joelhos enquanto esperava que seu ritmo cardíaco se normalizasse. "Só não quero prejudicar a equipe por causa de um machucadinho idiota." Explicou, dando de ombro. Era tipicamente Bernard, tratar como um arranhão algo que, se extenuado como estava fazendo menos que um minuto atrás, poderia vir a tirá-lo do campo permanentemente.

Não podia deixar de admirar um pouco a dedicação de Bernard, até por ter a certeza que nunca apresentaria nem metade disso. Não conseguia evitar. Ian podia ser um bom jogador, mas tinha o maior defeito deles todos: era preguiçoso. Se tivesse a benção de uma lesão, provavelmente a aproveitaria até o último segundo, se fechando no seu dormitório jogando video game, enquanto podia. Gostava de desporto, mas lacrosse se tornara mais uma obrigação que outra coisa, na sua vida. Era o jeito mais fácil de pagar seus estudos. Não gostava exatamente de o fazer, só era bom nisso. Tinha um talento e agilidade natural para ele e sabia que nunca tinha sequer tido a chance de entrar em Harvard se não fosse por isso. Podia ser preguiçoso, mas não era idiota. Enquanto praticar um simples desporto fosse ajudar o seu futuro, faria-o. Mas claro que isso fazia-o sentir um pouco mal quando vi pessoas como Bernard, onde entregavam toda a sua dedicação a equipe. Harris não seria capaz de fazer isso, até porque… Desprezava a maioria deles. E, de um certo jeito, tachava-o de idiota junto com todos eles. Tão simples quanto isso. Mas isso não queria dizer que não se importasse o suficiente para não o deixar sufocar debaixo de um monte de pesos que ele não deveria estar levantando.

"Sem ofensa, mas você não será muito útil à equipe morte." Comentou, com um sorriso de lado. Por muito que ele achasse que alguém eventualmente salvaria Bernard, ainda haveria alguns riscos. "E não é um machucadinho idiota. Você deveria ter cuidado. Pode arruinar toda sua carreira assim." Pelo menos, nisso Ian sabia do que estava falando. Tinha ouvido mil e uma história sobre pessoas que tinham forçado suas lesões ao ponto de exaustão, os impossibilitando de voltar a jogar para o resto da sua vida. Por algum motivo, conseguia ver claramente isso acontecendo com Bernard. Deus sabia que ele parecia idiota o suficiente para levantar pesos sozinho, sem qualquer presença para vigiar seu treino.

Se ajoelhou junto da sua bolsa no chão, abrindo o seu zíper e procurando sua garrafa de água lá dentro. Logo a estendeu para o garoto sentado, oferecendo-lhe um sorriso simpático. Por muito que comparasse todos eles a primatas na sua cabeça, isso não lhe impossibilitava de pelo menos mostrar-se um bocadinho acima deles. E, se estivesse sendo sincero, provavelmente estava sendo injusto no meio de tudo aquilo. Nunca tinha ouvido Bernard dizer mais do que duas frases no meio deles e, as que ouvira, não tinham sido tão ofensivas assim. Mas Ian nunca fora muito bom em impedir-se a fazer julgamentos de valor. “Beba. Acho que está precisando mais do que eu.” Só começaria seu treino quando tivesse a certeza que ele estava bem o suficiente para sair pelo seu próprio pé. Ninguém lhe poderia dar a certeza que ele não teria um surto de estupidez e tentar levantar pesos sozinho de novo. 

posted 9 months ago from bernardvilleneuve (© harrisian) with 4 notes
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I wanna be your hero, baby.

Se havia uma coisa que irritava Harris, era as chamadas diárias de seus pais. O faziam sentir-se como uma criança que precisava de constante vigilância. Sabia que eles sentiam sua falta e que estavam só preocupadas, mas isso não o impedia de se sentir incomodado com o inquérito diário. Especialmente aquela pergunta estúpida de sempre: Já fez alguns amigos? Parecia que tinha voltado a ter dez anos e ninguém o tinha avisado. Na verdade, estava um pouco embaraçado por a resposta ser sempre a mesma: não. Não importava o quanto tentasse, Ian parecia não encontrar o seu lugar em Harvard. Tinha conhecidos, é claro. Mas ninguém que sequer pudesse chamar amigo. Amaldiçoava a hora que todos os seus melhores amigos tinham sido demasiado burros para entrar ali. Então, estava indo botar suas frustrações para fora do melhor jeito que conhecia: no ginásio. E não ficou surpreendido quando encontrou um dos membros do seu time lá.

Não conhecia bem Bernard. Na verdade, não conhecia direito ninguém do seu time. Parecia algo errado, já que a mensagem que transmitiam é que deveria existir uma fraternidade entre eles eterna, mas Ian simplesmente não se conseguia integrar no meio deles. Pareciam todos… Demasiado sérios, focados em coisas que pareciam-lhe estupidamente secundárias. Por muito que ele adorasse um par de peitos como qualquer outra pessoa, não sentia necessidade de falar sobre isso o tempo inteiro. De primeiras impressões, certamente aquele time lhe dera a pior possível. Mas não era como se pudesse simplesmente sair porque estava insatisfeito com as pessoas. Tinham sido escolhidos a dedo para entrarem na equipe de Lacrosse. Por muito idiotas que fossem, todos eles eram bons. Isso Harris tinha de admitir. E isso incluía Bernard. 

A única coisa que realmente sabia sobre ele era que ele estava lesionado. Aparentemente, algo no campo no último jogo e e agora precisava de ficar de repouso durante umas semanas. Da última vez que Harris tinha checado de repouso significava longe do ginásio, mas ele não o questionaria. Preferia se manter longe de assuntos que não lhe diziam respeito. Claro que isso se tornou algo impossível quando viu o outro se debatendo com os pesos. Demorou alguns segundos para reagir, mas logo largou a alça de sua bolsa no chão, correndo até ele e ajudando-o a colocar nos suportes de metal. "Cara, você precisa de ter mais cuidado, especialmente quando não está na sua melhor forma de física." Arqueou uma sobrancelha, o observando algo curiosamente. Se perguntou o que aconteceria se ele não tivesse aparecido. Morrer daquela forma seria um pouquinho humilhante. 

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posted 9 months ago from zarriee with 21 notes
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